sexta-feira, março 20, 2020
Redundância e Europa
Tenho seguido, como tanta gente, as previsões para a evolução da epidemia, quer a nível nacional quer a nível global. Previsões otimistas e previsões pessimistas. Pequenos e grandes esforços de aplicação de capacidade matemática previsional.
Cada pequena inflexão é uma esperança. Para as pessoas, para as famílias, a esperança é importante.
Mas, coletivamente, para o Estado e outras instituições, confiar na esperança pode revelar-se uma desgraça quando estamos a lidar com sistemas críticos (i.e. sistemas "que não podem falhar" pelas consequências devastadoras que essa falha comporta). É para o "pior caso", e sobretudo/apenas para esse, que esses sistemas se devem preparar. Para tal, precisam muitas vezes de redundância, de sobredimensionamento - e o sistema de saúde é, talvez, o maior sistema crítico das sociedades contemporâneas.
Redundância e sobredimensionamento são geríveis mais eficientemente à macro-escala. À escala nacional para os que podem. À escala macro-regional para os que percebem a força da integração. Daí ser tão ensurdecedor o silêncio distante da UE, independentemente dos milhões anunciados em cima da crise e das declarações de intenções.
Com o Brexit, a tragédia dos migrantes, a sua impotência internacional (tão evidente na Síria, no Irão e na Ucrânia, por exemplo) e, agora, com esta manifesta falta de protagonismo na resposta ao COVID-19 (talvez a maior ameaça que a Europa enfrentou desde o início do processo de integração), a nossa Princesa Europa parece estar tristemente perdida.
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sexta-feira, março 20, 2015
Imaginem duas chávenas de café à vossa frente
O mundo está a mudar muito rapidamente. Tecnologias como a robótica, a inteligência artificial e a realidade virtual, associadas à aceleração exponencial da velocidade de computação, estão a transformar rapidamente e de forma disruptiva as economias e a forma como vivemos.
O Instagram substituiu a Kodak, tal como o airbnb está a substituir a Hyatt ou a Uber está a inquietar milhares de operadores de táxis espalhados pelo mundo (e também em Portugal). O acesso à informação é cada vez mais imediato. Numa pequena incursão aos desenvolvimentos da realidade virtual, podemos citar os óculos da Google (apresentaram o conceito ao mundo, apesar de serem algo feios, pouco práticos e muito caros), a Oculus VR (comprada pelo Facebook) e a sua ligação à Samsung Gear VR, e o Google Cardboard como exemplos de tecnologias que estão e vão transformar a nossa própria perceção do mundo e as interações de que é composto. Também na vanguarda da nova exploração da realidade virtual estão a Fearless (para combater os nossos medos através de doses crescentes de realidade virtual…experimentem), o Lowe’s Holowroom (para experienciarmos mudanças lá em casa) e a Magic Leap, só para dar alguns exemplos. Para percebermos melhor o que já está a acontecer, imaginem que estão sentados a uma mesa e que têm duas chávenas de café à vossa frente. O desafio (sem tocar e sem cheirar, para já) é escolher qual a verdadeira. E imaginem que, olhando com toda a atenção, é impossível notar qualquer diferença. É esse o mundo em que iremos viver. E não será daqui a muito tempo.
Adenda: daqui a um pouco mais de tempo poderemos sentir a chávena virtual (com umas luvas ou pequenos adesivos nas mãos), “cheirá-la” (através da representação de odores que acionam a nossa perceção de cheiro) e mesmo “bebê-la” (quando “levarmos” a “chávena” à boca teremos a exata perceção de que a estamos a beber, sabor incluído).
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sexta-feira, fevereiro 20, 2015
Uma visão para a economia portuguesa*
Um conjunto de mudanças endógenas no funcionamento da economia e da sociedade portuguesas combina-se com forças externas globais para transformar as próximas décadas num período único em termos de dinâmica de crescimento, aumento da capacidade competitiva e reorganização setorial, institucional e social do nosso país. Portugal associa um processo de reindustrialização à liderança global no que toca à economia verde, destacando-se, por exemplo, nas áreas das energias limpas, mobilidade sustentável e novos materiais inteligentes, e afirmando-se como prestador de serviços intensivos em conhecimento. Portugal reforça igualmente o seu posicionamento internacional como país de turismo e acolhimento, não só através das suas vantagens comparativas "clássicas", mas também de uma renovada capacidade de organizar o seu território, apostar na reabilitação, no património e no planeamento urbano. Portugal responde aos problemas económicos com a capacidade coletiva de gerir e encontrar respostas, conseguindo, passo-a-passo, reequilibrar as situações. A combinação das melhorias ao nível do planeamento urbano com a dinâmica das indústrias culturais e criativas reforçam uma lógica de "acolhimento inovador", tal como as atividades associadas ao envelhecimento ativo, incluindo o desenvolvimento de nichos de mercado relacionados com a indústria da saúde/farmacêutica.
*Adaptado de Alvarenga, A. (coord.), Carvalho, P., Lobo, A., Rogado, C., Azevedo, F., Déjean Guerra, M. e Rodrigues, S., “A Economia Portuguesa a Longo Prazo – um Processo de Cenarização”, DPP, Lisboa; 2011; Fortes, Patrícia, Alvarenga, A., Seixas, J., Rodrigues, S. (2015), “Long-term energy scenarios: Bridging the gap between socio-economic storylines and energy modeling”, Technological Forecasting and Social Change, Volume 91, February, Pages 161–178.
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sexta-feira, janeiro 23, 2015
Há razões para otimismo (apesar de tudo)
O mundo enfrenta problemas difíceis e a informação negativa, perigosa, tem uma força que as boas notícias, muitas vezes, não têm. O ser humano está, aliás, “programado” para estar particularmente alerta ao perigo. Será por isso (e em resposta a isso) que terrorismo, fundamentalismo, guerra, pobreza, desemprego, escassez de água, fome, poluição, pandemias, crises energéticas, crises económicas, fenómenos climáticos extremos, perda de biodiversidade e acidentes graves entram diariamente pelas nossas casas e, sobretudo, pelos nossos pensamentos adentro, provocando diferentes sentimentos: medo, revolta, tristeza, impotência, apatia, indiferença (penso muitas vezes na pouca distância que vai da tolerância à indiferença…). O pessimismo parece ter algo de biológico, está “inscrito” em nós, na nossa já longa história evolutiva em que dar atenção ao perigo é o mais importante. O resto, neutro ou positivo, é secundário.
Posto isto, junto uma pequena lista de tendências positivas, olhando para a larga escala (temporal e espacial), portadoras de esperança para o mundo (apesar de tudo): a esperança média de vida e a literacia têm vindo a aumentar, tal como o rendimento médio per capita. A mortalidade infantil tem vindo a diminuir muito significativamente. Milhões de pessoas passaram a ter acesso a água, saneamento, eletricidade, capacidade de refrigeração e aquecimento, equipamentos de comunicação e de transporte. A guerra, infelizmente, ainda marca a humanidade, mas, comparativamente, o período contemporâneo está longe de poder ser considerado um período particularmente sangrento da história. Para a humanidade, o caminho é longo e complexo. Mas há razões para otimismo (apesar de tudo).
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sexta-feira, dezembro 26, 2014
Economia Portuguesa: os últimos 70 anos num minuto
Até aos anos 50, a economia portuguesa caracterizava-se por um acentuado ruralismo e pelo foco na auto-suficiência alimentar, a par da proteção da produção nacional. De 1950 a 1973, Portugal apresenta sinais de crescimento económico, embora persistam a pobreza e as desigualdades sociais. As tentativas de industrialização são condicionadas e existem fortes restrições ao investimento. O país “urbaniza-se” e “industrializa-se”. Os anos pós-crise petrolífera e pós-25 de Abril foram marcados por forte instabilidade. Viveram-se duas crises económicas particularmente fortes em Portugal, as quais levaram a intervenções do Fundo Monetário Internacional. A primeira ocorreu em 1977. A segunda em 1983. A partir de meados dos anos 80 entramos na chamada “fase europeia”. O crescimento económico é fortemente apoiado nos fundos comunitários. No início dos anos 90, no contexto do colapso do Sistema Monetário Europeu, a situação económica em Portugal deteriora-se rapidamente e o país entra em recessão. Dois movimentos estruturais marcam a segunda metade da década de 90: a consolidação de um polo de exportações industriais essencialmente baseado em investimento estrangeiro; e um intenso investimento e modernização dos sectores infra-estruturais (telecomunicações, audiovisual, gás, eletricidade, auto-estradas, água e ambiente). A partir de 2001, a economia portuguesa oscila entre a recessão e a estagnação, em contexto de adesão ao euro e de globalização. A partir de 2008 acentuou-se a crise económica internacional. Algumas economias da zona euro viram-se na necessidade de recorrer a ajuda externa para se financiarem. Em 2010/11 foram formalizados os pedidos de resgate financeiro.
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sexta-feira, novembro 28, 2014
Um tempo serenamente disléxico
Encontrei um livro de Murakami lá em casa e adotei-o. Leio-o devagar, ao mesmo tempo que leio outras coisas. As ideias e os acontecimentos que descreve vão interferindo com os meus pensamentos e dia-a-dia. É como se o dia-a-dia descrito por Murakami nesse mundo possível de 1Q84 contaminasse o meu, lentamente.
Acho que estou perante uma obra-prima. As disrupções temporais que explora, as distorções do possível que evoca, transformam o ano de 1984 no ano de 1Q84. De alguma forma, trata-se de um processo idêntico ao que utilizamos quando, através do encontro entre a grande mas falível capacidade cerebral que possuímos e os acontecimentos, interpretamos o real (e formamos convicções; e tomamos decisões).
Esta espécie de dislexia do tempo e do possível é consumidora de energia, particularmente numa sociedade da informação em grande aceleração a que se tende a responder com inércia (não confundir com tolerância) ou com sobre-simplificação (não confundir com clareza). Como orientação, só me consigo lembrar de um caminho no sentido:
• da consideração aberta do possível (combatendo fatalismos);
• do reconhecimento da incerteza (a partir do conhecimento e não da ignorância);
• da capacidade de reconhecer padrões (e limitações) pessoais de interpretação e de decisão;
• e da escolha, em liberdade, de mediadores (Quem ler? Quem ouvir? Quem escolher para nos informar? Quem acompanhar? A que comunidades pertencer?).
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sexta-feira, outubro 31, 2014
Um segundo depois, uma fotografia de uma ferida
(1) Gosto de imaginar que todas as fotografias do mundo (cujo objeto são pessoas que sabem que estão a ser fotografadas) sofriam um atraso de 1 segundo. Ao serem apanhadas 1 segundo depois do previsto, o mais provável é a pessoa fotografada estar a dar um passo em frente (em direção ao fotógrafo). O registo deste passo (em vez do registo da encenação) poderia fazer toda a diferença: tornar a fotografia dinâmica, genuína, real. Dar-lhe um futuro.
(2) Estava com a minha filha mais velha (que mesmo assim é muito nova) a ver fotografias da família. Eu perguntava-lhe “onde está a mamã?”, “onde está a vovó?”, “onde está a mana?”, etc. Quando apareceu uma fotografia minha e lhe perguntei “onde está o papá?”, ela parou por um momento, poisou a fotografia e apontou para mim (para mim mesmo, não para a minha representação fotográfica). Por momentos, os meus 40 e poucos anos de aculturação quase me levavam a corrigi-la.
(3) Uma ferida serve, pelo menos, para duas coisas: como ponto de partida para a reconstrução de memórias; como testemunha da extraordinária capacidade de regeneração do corpo (extraordinária mas limitada).
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sexta-feira, outubro 03, 2014
Persistência e mutabilidade
No quarto e quinto séculos a.C. os debates filosóficos aumentaram de intensidade, aprofundando-se a reflexão metafísica e a procura da autoconsciência. Heráclito, Parménides, Sócrates, Platão e Aristóteles estão entre aqueles que protagonizaram algumas das primeiras discussões entre estruturas filosóficas antagónicas, encetando diálogos que, em alguns aspectos, podem ser transportados até à era atual. O pensamento de Heráclito e Parménides, por exemplo, permite-nos imaginar um diálogo bastante vivo. Heráclito (aprox. 535 a.C. - 475 a.C.) via o mundo como um conjunto de sistemas de fluxos, mutáveis e emergentes. A incerteza e as diferentes possibilidades faziam parte da sua visão do mundo. Por outro lado, Parménides (530 a.C. — 460 a.C.) defendeu o caráter permanente, imutável, da realidade, muito inspirado pelo alfabeto que favoreceu o domínio da percepção visual, valorizando o universal, o abstrato e o estático, em detrimento do fluido e o particular. Heráclito preocupou-se sobretudo com o processo, orientado pela indeterminação, fluxo, interpenetração, em mudança incessante. Em contraste, quadros teóricos positivistas como os de Karl Marx e Adam Smith (e Parménides) acreditavam na presença de forças persistentes (e invisíveis) subjacentes e definidoras do mundo real. Parménides e a permanência, as causas profundas que marcaram o passado e marcarão o futuro. Heráclito e a incerteza emergente, a impossibilidade da previsão, a certeza de que, por muita análise que se faça, seremos sempre surpreendidos.
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sexta-feira, setembro 05, 2014
O PIB e a tartaruga
O PIB – Produto Interno Bruto é a “pop star” dos indicadores económicos. Amado por muitos, temido por outros tantos, todos já ouviram falar dele e, no fundo, no fundo, sabem que não o podem ignorar.
Todos sabemos que o PIB não é perfeito mas, não obstante a procura de alternativas (em Portugal, ver, por exemplo, o Índice de Bem-Estar do INE), o crescimento do PIB continua a ser a grande ambição da política pública, o critério central que, apesar das suas limitações, “habita” a cabeça dos decisores e molda as suas decisões. Não é o único critério, claro. Sustentabilidade ambiental, emprego, saúde, equidade na distribuição de riqueza, entre outros, também entram na equação. Mas o PIB é o PIB. A evolução deste indicador sustenta ou derruba governos, cria ou destrói o sentimento de otimismo face ao futuro, permite ou dificulta a facilidade de crédito internacional do Estado.
Mas o que é, afinal, o PIB? O PIB representa a soma (em valores monetários) de todos os bens e serviços finais produzidos num espaço geográfico definido, durante um determinado período (o mais comum é o ano).
E como tem sido a sua evolução em Portugal? Olhemos apenas para o século XXI. Em resumo, podemos dizer que a evolução do PIB foi… muito má. Isto equivale, em números, a um PIB que passou de 152,2 mil milhões de Euros em 2000 para 153,5 mil milhões em 2013 (valor preliminar; PIB a preços de 2006), o que corresponde a uma Taxa Composta de Crescimento Anual de 0.1%. Ou seja, na prática, e olhando de forma estrita para o PIB, quase que poderíamos dizer que “estamos na mesma”. Só que a coisa não é bem assim. Primeiro, a estabilidade económica “exige” (pelo menos por enquanto) crescimento económico. Crescer menos de 1% ao ano é dificilmente sustentável a longo prazo, sendo insuficiente para melhorar significativamente as taxas de emprego. Segundo, a referida taxa esconde anos particularmente complicados, como 2003, bem como o período mais difícil de todos que se tem vindo a prolongar, quase ininterruptamente, desde 2008. Terceiro, o desempenho económico de Portugal foi significativamente inferior à média da UE, sendo que a própria UE teve uma performance económica muito aquém quer dos grandes asiáticos emergentes quer, por exemplo, dos EUA. Ou seja, estamos a perder uma corrida contra uma tartaruga idosa e já bastante cansada (e não contra um carro de corrida).
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sexta-feira, agosto 08, 2014
Tem potencial?
Fala-se muito em “potencial”, em “ter potencial”. Ideias, pessoas, regiões, cidades, países, sectores de atividade, etc., são avaliados como “tendo potencial” (ou como lhe faltando o mesmo).
Mas o que é, afinal, ter potencial? Ter potencial é uma projeção do objeto da avaliação num futuro possível entendido, sob um determinado ponto de vista, como positivo (este ponto de vista pode ser individual, organizacional, nacional, mas também ambiental, económico, tecnológico, etc.). Parte-se do passado e do presente e, com base em informação e evidências (evidence), projeta-se estas evidências no futuro, augurando-se “potencial” a algo.
O que é, então, necessário para ter potencial? Parece-me haver três condições:
1 – A existência de características distintivas na relação que é estabelecida com o contexto. Ter potencial é uma medida de relação. Nada nem ninguém tem potencial isolado. O potencial vem da relação com o outro, com o que não se controla, com o que não depende de “nós” (chamem-lhe contexto estratégico, mercado, ou outra coisa qualquer). O potencial vem da capacidade dessa relação se desenvolver, ganhar amplitude.
2- A existência de evidence/informação sobre essas características distintivas e de capacidade para as interpretar (sensibilidade). Somos capazes de captar esses sinais portadores de futuro, evidências de diferenciação, se quisermos usar a linguagem da Estratégia?
3 – A capacidade (e o desejo) de projetar e articular essa evidence/informação numa ideia de futuro possível, plausível e desejado (“projeto”). De definir e implementar uma intenção estratégica.
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sexta-feira, julho 11, 2014
A Estratégia tem um problema com o futuro
A Estratégia tem um problema com o futuro: o raio da coisa teima em ser incerta, não se deixa prever com facilidade, surpreende-nos e coloca em causa os nossos planos, feitos com tanta atenção, coerentes, “acertados” e alinhados. Alinhados, regra geral, com uma evolução “business-as-usual” do contexto estratégico, assumindo não só que o dia de amanhã vai ser mais ou menos igual ao de ontem, mas também que o próximo ano será mais ou menos igual ao ano anterior, os próximos 5 anos mais ou menos iguais aos 5 anos anteriores, e assim sucessivamente. Ou seja, o planeamento intitula-se com frequência de “estratégico” mas fica retido no curto prazo, no cada vez mais curto espaço de tempo em que as condições estruturais do nosso negócio, do nosso mercado, do contexto socioeconómico em que nos inserimos, permanecem relativamente constantes.
Então, o que fazer? Simplificando, temos pelos menos duas hipóteses:
(1) Identificar e analisar os fluxos longos de mudança que mais afetam o nosso foco / a nossa questão de base, pensar a forma como se inter-relacionam e situarmo-nos face a eles. Sete exemplos clássicos desses fluxos longos conhecidos por Megatendências (ou Tendências Pesadas): Envelhecimento da População; Pressão Crescente sobre os Ecossistemas; Urbanização; Cultura Digital; Globalização Económica; Individualização; Convergência Tecnológica.
(2) Mudar as regras tradicionais da Estratégia e, em vez de nos focarmos no “certo” (ou seja, no que achamos que continuará de uma determinada forma), focarmo-nos no incerto (ou seja, nas variáveis chave que, no médio/longo prazo poderão evoluir de formas muito diferentes). Sete exemplos destas potenciais Incertezas Cruciais, pensando em Portugal como foco: Evolução do Perfil de Especialização; Sustentabilidade Financeira da Economia; Capacitação Institucional; Valores Culturais e Capacidade de Gerar Capital Social; Evolução do Modelo de Coesão Social; Tipologia e Papel das Cidades; Evolução dos Sistemas de Ensino e Formação em Portugal.
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sexta-feira, junho 13, 2014
Também o amor é tempo, assim
O tempo é uma coisa estranha (primeiro que tudo é simultaneamente objecto e instrumento de si próprio; sem tempo não é possível falar do tempo).
Decidiu-se esta coisa do passado, do presente e do futuro. Sobre o passado costuma dizer-se que não devemos ficar agarrados a ele. Mas isso é obviamente impossível. Felizmente estamos “agarrados ao passado”. É do passado que retiramos as experiências, os ensaios de acção, os nossos ecossistemas (naturais, mas também sociais e culturais). É do passado que vimos. Somos passado, nesse sentido. Sem passado não somos. Mas não temos que nos preocupar: a morte libertar-nos-á das amarras do passado. E, olhando de longe o tempo, isso ocorrerá já amanhã.
Sobre o futuro costuma dizer-se que “a Deus pertence”. E parece-me fazer sentido. Só Deus, possivelmente, pode lidar com a sua abertura, pluralidade e complexidade. Mas há um pequeno problema: as expectativas. Os nossos cérebros absolutamente pequenos (mas grandes em termos relativos) são autênticas máquinas de criação de expectativas. Desde as mais prosaicas e “automáticas” (por exemplo, a expectativa de que o carro da frente que faz pisca para a esquerda vire, de facto, para a esquerda), até às mais “estratégicas” (por exemplo, a expectativa de que um determinado investimento seja “rentável”). Nesta lógica, o amor é “só” a expectativa da eternidade; também o amor é tempo, assim.
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sexta-feira, maio 16, 2014
Não há panda que se lhe compare
Há muito tempo que me apetece escrever sobre o carneiro Choné. Antes de mais para clarificar o sexo do animal: Choné é um carneiro, não uma ovelha. Parece-me ser de elementar justiça afirmá-lo sem rodeios (podemos discutir, no entanto, se se trata de um carneiro ou de um cordeiro). A letra da canção é andrógena e induz os nossos filhos em erro (“ele é ovelha, ele é Choné”). Depois, e à semelhança, imagino, de muitos pais e mães de crianças maravilhadas pelo ritmo e expressividade desta série de animação britânica, porque passo algumas horas da minha vida a assistir às aventuras do dito carneiro (ou cordeiro) e dos seus amigos. Uma das muitas vantagens de ter filhos pequenos é podermos apreciar este tipo de oferta sem os outros adultos pensarem que estamos a ser infantis (outras vantagens passam, por exemplo, por ter sempre uma boa justificação para recusar convites indesejados, voltar a brincar com legos, passear lentamente pela cidade e, claro, ter a experiência maior do amor por um filho, o processo de construção desse amor em relação e a permanente transformação e desafio que ele comporta). Mas voltemos ao que verdadeiramente interessa. O carneiro (ou cordeiro) Choné é o líder de um excêntrico rebanho de lanígeros que vive numa quinta com um ser humano (o fazendeiro), um cão (o Bitzer – acho que significa “rafeiro”, ou algo parecido) e uma vara de porcos mal-dispostos (assim de repente não me lembro de outras personagens). Nota-se na série a influência seminal de Wallace e Gromit (onde pela primeira vez o Choné apareceu) e o traço criativo e rigoroso da BBC. A animação e os argumentos são de uma enorme qualidade e clareza. A ausência de diálogos clarifica, nem se nota, e faz-me lembrar (não estou a exagerar) o silêncio indispensável para apreciar um concerto de música clássica. Não há, peço desculpa, panda que se lhe compare.
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sexta-feira, abril 18, 2014
Os botões de punho
Há tanta coisa; a água; a linha e o resto; a coluna do renascido MEC; o Herman, não o José, o Kahn; o pensamento; a ideia de parar de ter ideias; o móvel de criado-mudo; os olhos azuis da Maria; os caracóis da Ana; o saudável Agualusa que tem um diário; a minha memória também necessita de um; uma casa onde se pode escrever; uma casa marcada pela leitura, não de livros, mas do que existe; o almoço e a conversa; o café na máquina que funciona cada vez melhor; o eu e o mim; o calor de Lisboa (e o Tejo ao início da noite?); a escala de Viseu; os bancos, não os de jardim; as cadeiras, não as da universidade; a religião; os arquitectos; as pessoas; os seus cérebros; as suas emoções; a ausência de um; a ausência do outro; a ausência dos dois; a presença de um; a presença do outro; a presença e interacção dos dois, cérebro e emoções; o km2 à nossa volta; as limitações do cérebro que nos dão corpo; as emoções que nos relembram que temos corpo; a criatividade que emerge; o círculo interrompido; e o acidente; a música; a grande música; e o ritmo; a doença; a roupa; e os sapatos; a comida (incluindo a japonesa e o peixe grelhado); e desligar; a televisão; o telemóvel; o computador; o rádio; a luz; o corpo; e ligar-nos; construir o “entre”; valorizar o encontro; falhar; voltar a falhar; e falhar melhor, como diz o meu amigo João; olhar para o mundo; o envelhecimento; o passado que alteramos cada vez que nele pensamos; o presente monopolista e inexistente; a liberdade ilimitada e a outra, a grande, íntima, limitada; o cansaço; a energia; o poder sobre os outros; o poder dos outros; o poder; o amor; os líderes que conheciam a verdade e sabiam; o “tudo é possível”; e a relação, a partir da colisão; a linguagem; o bluegrass; a ironia; e o riso; a gargalhada; o sorriso; o silêncio; os botões de punho.
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sexta-feira, março 21, 2014
Acelerar e Desacelerar
Tenho duas filhas pequenas que me iluminam os dias. Crescem rápido e a sua capacidade de aprendizagem parece infinita. Ao vê-las, sinto, por vezes, que alguém acelerou a imagem, como naqueles pedaços de filmes em que é usado o efeito avanço rápido (fast forward), permitindo que o movimento invisível (de uma árvore ou de uma paisagem, frequentemente associado ao passar das estações do ano) se torne visível.Muitas vezes temos que desacelerar para ver, para reparar. Este exemplo mostra que, em algumas ocasiões, também temos que acelerar para ver. Nesta perspectiva, o tempo individual é, acima de tudo, ritmo, cuja cadência ganha significado pela alternância entre aceleração e desaceleração e pelo que reparamos em cada momento (“reparamos” no duplo sentido de “ver” e de “agir”). Trata-se de adequar o ritmo e a acção/decisão aos acontecimentos, conscientes do carácter fractal destas diferenças. Cada acontecimento-encontro tem um ritmo e um tempo próprios. Uma aceleração-precipitação desapropriada (fruto, por exemplo, da ansiedade, da necessidade de preencher um vazio percepcionado) e “o mal está feito”. Uma desaceleração-espera apática e a oportunidade esfuma-se. É por estas (e por outras) que a Gestão e a maneira como tomamos decisões são formas apaixonantes de “artesanato”.
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sexta-feira, fevereiro 21, 2014
Há uma impossibilidade neste tempo
Os partidos políticos, mais ou menos articulados, apresentam-nos narrativas (histórias) para a sociedade, para a economia, mas também para o mais pequeno pormenor técnico-regulamentar. Estas narrativas são treinadas, "eficientes", repetidas, repetidas, repetidas. Com as repetições, repetições, repetições, as "impurezas" vão desaparecendo, tornando-as ainda "melhores".
E todas apelam a uma escolha, a um posicionamento. E muitas pessoas informam-se, escolhem, posicionam-se. Mas, lá no fundo, sabem que estas escolhas são sempre "primárias", "orgânicas" (é o nosso corpo que decide antes?), ideológicas (seja).
Podemos, eu sei, ter a nossa própria narrativa sobre a sociedade ou a economia. Podemos pensar nela (uma meta-consciência), torná-la mais resiliente, sabendo que é sempre frágil, perene, curta e indefinida. Sugiro três caminhos possíveis e articuláveis para a procura da nossa narrativa individual:
(1) Procurá-la da mesma forma que uma imagem surge no seu negativo. Isto é, procurar a nossa narrativa explorando incessantemente o que dela não faz parte, conhecendo ao pormenor o que negamos.
(2) Usar mediadores com quem, ao longo do tempo, criamos uma relação de confiança.
(3) Usar o futuro para decidir no presente mas não para deixar de estar aqui, neste momento, sentado a escrever um texto, rodeado de notas sobre as muitas coisas que tenho para fazer. O potencial de existir (e de decidir) "estando" é muito grande. Este "estar" sintetiza, em tempo real, o passado longo e o futuro longo. Nesse gesto tudo se decide e, a seguir, desse gesto como decisão já não resta nada, "apenas" a sua interacção com o contexto e a nossa narrativa em construção.
Esta interacção entre "gesto" e "narrativa em construção" é o ponto onde estou.
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sexta-feira, julho 10, 2009
Eu não sei se vou cumprir o meu programa político
Sazonalmente, em tempo de eleições, os políticos apresentam um programa político; depois, se ganharem as eleições, tentam implementá-lo. Simples.
Este processo simples, com as características de um sistema nada complexo (apresentação do programa » eleição » cumprimento do programa » eleição), parece a coisa mais natural do mundo, óbvia, necessária e conveniente. Afinal, é ou não conveniente e sério que um político cumpra o que propôs aquando da sua eleição?
Esta questão encerra em si mesma um dilema. O problema está na promessa. Como todas as pessoas, também os políticos, quando prometem, têm um “futuro oficial” na sua cabeça, isto é uma evolução que, de forma mais ou menos estruturada, mais ou menos trabalhada e explícita, antecipam para o contexto da sua decisão, para as forças que não controlam mas que afectam de forma decisiva a qualidade das suas decisões (e, logo, a exequibilidade/qualidade das suas promessas e do seu programa eleitoral). O problema é que esse “futuro oficial” é frequentemente frágil, pouco estruturado, pouco “trabalhado” e aberto à mudança.
Mas se não controlam essas forças o que é que “eles” têm a ver com isso? Tudo. Têm tudo a ver com isso. Não é por não querer ver a ascensão da China na economia internacional que os empresários portugueses que apostavam na mão-de-obra barata e em produtos baratos e indiferenciados deixaram de sentir os respectivos efeitos. Não é por não querer conhecer a crise económica em Espanha que as empresas portuguesas que apostaram na integração ibérica deixam de sentir as consequências dessa crise.
A competência do gestor/decisor é, também, perceber muito bem as forças que não controla mas que o podem afectar decisivamente. Já não é apenas fazer melhor o que sempre se fez. Não basta fazer cada vez melhor t-shirts brancas.
Não se pode perceber a Economia Portuguesa sem se perceber muito bem o que se está a passar nas Economias alemã e espanhola (para não ir mais longe). Não se pode perceber o futuro de Viseu (aliás, nem o passado) sem se perceber os constrangimentos da Economia Portuguesa, a sua matriz assente no imobiliário-construção-turismo-distribuição-banca-Estado e em algum investimento estrangeiro no automóvel e na electrónica, ou a incerteza que rodeia o orçamento comunitário e o Futuro da Política Regional.
Há, assim, um dilema enfrentado pelos que prometem com um “futuro oficial” na cabeça: a qualidade das suas decisões depende da evolução do contexto dessas decisões; é, por isso, incerta.
Um programa político, regra geral, não incorpora a incerteza. Um “bom” autarca, por definição, “sabe”. Sabe o que é melhor como se soubesse prever o futuro, como se tivesse um dom especial, como se não fosse necessário, nem conveniente, considerar o que é incerto e tem um grande impacto no nosso futuro, como se não fosse necessário estar particularmente atento ao que muda e, se necessário, mudar de rumo e antecipar-se à concorrência.
Mas, felizmente, não é possível prever o futuro. Mas é possível antecipá-lo, simular diferentes evoluções possíveis e perceber o que essas evoluções podem significar para a nossa região. É possível, assim, construir uma estratégia para uma região ou uma cidade mais robusta face aos diferentes futuros possíveis e estar atento (e eventualmente aproveitar) os pequenos sinais de mudanças que podem ter fortes impactos no desenvolvimento das regiões no futuro.
As pessoas, e os responsáveis políticos em geral, têm um “futuro oficial” na cabeça, um futuro que, implícita ou explicitamente, com maior ou menor auto-consciência, acham que vai acontecer. A questão chave é saber se esse futuro é suficientemente sólido para evitar que se cumpra “alegremente” um programa político, positivo num determinado contexto externo, mas que deixa de fazer sentido se as condições externas, “casmurras”, não se comportarem de acordo com o “futuro oficial”. E elas são, de facto, “casmurras”, mudam muito rapidamente, como fica claro quando se olha para a economia internacional na actualidade e quando se diz que, por exemplo, a economia portuguesa poderá ter um crescimento negativo de 4,5% em 2009.
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sexta-feira, maio 01, 2009
N2: mais do que isso não me peçam, deixem-me fumar o meu cigarro e voltar para os matraquilhos, por favor
Esta semana ando a viajar. Esta coluna não é uma coluna dedicada às viagens. E eu não sou um viajante. Mas em viagem há ideias que aparecem. E eu gosto de sair, de aproveitar a oportunidade que tenho de conhecer o que me rodeia. Esta é uma viagem pelo familiar. Por Portugal, percorrendo a Estrada Nacional nº2 que liga, pasme-se, Chaves a Faro, passando por Viseu, claro. O objectivo é sair do dia-a-dia tão carregado de objectivos, tarefas e horários e tentar desaparecer nas conversas com as pessoas que vão aparecendo pela N2.
E aparecem muitas pessoas pela N2. E, acima de tudo, muitas histórias. Narrativas de vendedores de uvas chilenas (2 euros a caixa) em pleno Alto Douro Vinhateiro que me confidenciam que em Viseu é que se vende bem. De um senhor, assustado, que olhava freneticamente para a estrada como se o viessem prender (pouco depois, vieram prendê-lo). Do senhor que, de mota, fazia 1200 km pelo Norte de Portugal, com a tenda às costas da mulher e a ideia dos copos ao final da tarde. Da dona de café de estrada que agora serve mais os sargentos do quartel do que os camionistas. Dos amigos que se juntam pela manhã para a conversa na sapataria-loja de desporto de um amigo recente em Santa Comba. De sonhos e memórias de um interior de Portugal envelhecido. De pessoas cheias de força, ainda. De sorrisos espontâneos de pessoas sentadas em muros e paragens de autocarro a ver passar os carros, os outros e as cabeças de gado.
Os três quartos de hora de conversa no Torrão também me ficaram na memória. As desventuras dos alentejanos que construíram a Grande Lisboa; que passaram do trabalho no campo a 30 escudos por dia para a construção a 180; que chegavam a casa no sábado à noite e voltavam a partir para Lisboa ao final da tarde de domingo; que têm histórias maravilhosas para contar; e que contam a quem os quiser ouvir. E as meninas de Viseu que vinham todos os anos trabalhar para os campos à volta do Torrão? Quem as trazia era o dono dessa casa, está a ver? (e os olhos brilhavam, mesmo, como se as estivesse a ver - e estava, claro)
De vez em quando esta suave decadência do interior de Portugal faz-me lembrar o inevitável Edward Hopper. Eu sei que é um cliché, paciência. Talvez se o Hopper e a Joana Vasconcelos se fundissem e contratassem a A. Silva e Silva para construir um país resultasse em algo parecido.
Há quem saiba que a N2 termina no Algarve, basta ir sempre em frente. Há quem não saiba onde está. Há quem pense que a N2 termina em Vila Real e que a seguir vem o Porto, antes de Coimbra. Mais do que isso não me peçam, dizem, deixem-me fumar o meu cigarro e voltar para os matraquilhos, por favor.
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sexta-feira, março 06, 2009
Em Crise
Já sabemos. À crise financeira juntou-se a crise económica global, de contornos incertos, relativamente à qual poucos arriscam previsões no que toca ao timing da retoma. Talvez 2010, talvez 2012. Crescimentos negativos são possíveis, expectáveis, na Europa. Desacelerações fortes nos Emergentes, incluindo um forte travão da “locomotiva chinesa”, hoje actor central da geoeconomia internacional (até porque tem um papel fundamental na aquisição da famosa dívida pública americana).À crise económica junta-se a irmã, a crise social. Aumento do desemprego, do subemprego, apertos orçamentais para as famílias, dificuldades de sobrevivência e limitações às ambições individuais. E em contexto de crise social é expectável o surgimento de crises políticas, governos fragilizados, ascensão de populismos. Poderá começar na Europa de Leste mas não deverá ficar por aí.
E crises políticas, já se sabe, fragilizam o Estado, a sua credibilidade já afectada em contexto de sobreendividamento e maiores dificuldades de acesso ao crédito nos mercados internacionais, contribuindo para prolongar a crise financeira. Esta traz consigo a crise económica e a irmã, a crise social, antecessora da crise política.
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sexta-feira, janeiro 09, 2009
Só uma vez uma ‘paceña’ (também nome de cerveja) ganhou o concurso de Miss Bolívia
A 20 de Novembro fui passear. Para longe. América do Sul. Peru e Bolívia.Não é difícil. É preciso trabalhar, muito, antes, para poder partir. Também é preciso poder pagar a viagem. Mas não é caro. Não mais que umas férias de Verão no Algarve, com certeza. Mas, mais do que tudo, é preciso gostar de partir. É preciso saber que aquilo de que gostamos no nosso pequeno rectângulo ganha mais significado em perspectiva, visto de fora.
Estava muito curioso em relação à Bolívia, país encravado nos Andes, de revoluções constantes e de produtores de folha de coca. Foi deslumbrante. Os Andes são magníficos. Gostei do Peru. Amazónia, Machu Pichu e os Incas. A cosmopolita Lima, o cebiche e os “pisco sours” do velho hotel Bolivar na Praça San Martin. A magia de Cuzco. Mas adorei a Bolívia. Dura e agreste. Paraíso perdido, sempre com o céu por perto. Estranhamente perto de nós.
Descobri que os mapas na Bolívia não têm fronteiras porque, numa guerra com o Chile, a Bolívia perdeu o acesso ao mar que “completaria” o país – até nisso parece existir alguma poesia neste pedaço de mundo. E que as mulheres do Altiplano nunca (ou quase nunca) ganham concursos de beleza porque têm os pulmões maiores para respirarem melhor em altitude. Ganham sempre as de Cochabamba, Santa Cruz ou Sucre. E que Evo Morales promete “evo-lution”. E que El Alto é a capital mundial de wrestling feminino (http://www.cholitaswrestling.com/). E que professores cubanos andam de casa em casa a ensinar as pessoas a assinar o seu nome nas aldeias perdidas dos Andes. E que não há nenhuma estátua de bolivianos na avenida principal de La Paz. E que as pessoas não pintam as casas para não pagarem tantos impostos. E que é possível oferecer os Campos Elísios por amor (foi exactamente o que o espanhol Francisco Argandoña ofereceu à sua amada e mimada esposa Clotilde). Hoje, os Campos Elísios de Clotilde são um parque central em Sucre. E que Potosi já foi o centro do mundo, talvez maior que Londres e Paris (dizem eles, pelo menos), fonte da riqueza (e da inflação) espanhola e europeia devido a Cerro Rico, a montanha feita de prata que domina a cidade.
E, no entanto, a Bolívia é instável e pobre, oscilando entre a “maldição dos recursos” (sejam eles prata, ouro, gás natural, petróleo, silício, ou outros), nacionalismos fortes e tensões étnicas acentuadas, numa sociedade multi‑estratificada em que a maioria da população luta, todos os dias, pela sobrevivência.
E também é claro que o mundo ocidental é privilegiado. Podem ser privilégios frágeis, mas são claros. Podemos viajar, podemos ir, ver e voltar. Temos estabilidade política e Estados (relativamente) equilibrados e cooperantes. Democracias, impulsionadas por uma larga classe média relativamente informada e exigente, (ainda) capazes de absorver choque e de criar alternativas e transições tranquilas.
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