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sexta-feira, agosto 11, 2006

Um país per capita e a guerra no Líbano (com a Europa pelo meio)


Tempo de férias, de leituras despretensiosas (que saudades do Verão do “Código da Vinci”...) e de futilidades para relaxar. Festas da sardinha ou do vodka. Da espuma ou do salpicão. Rumo ao Sul, à costa, ao calor temperado pelo mar.

Sair do quotidiano para o tentar perceber melhor. Está tudo em pré-época em Portugal. Está tudo bem. Quem pode vai para um hotel. Quem pode assim assim aluga um sítio e partilha custos com família e amigos. Quem quase não pode tenta gozar umas escapadelas à praia. Quem não pode, ou finge que pode ou fica por casa.

Somos importantes e isso deixa-nos ir de férias descansados. Somos importantes não só porque somos uma das quatro melhores selecções de futebol do mundo mas também porque o nosso C-130 viaja, “a pedido da ONU”, entre Itália e Beirute. E é o único. A lógica nacional e a apresentação jornalística destas duas “importâncias” é mais ou menos a mesma. Uma e outra deixam-nos descansados.

Por um lado, somos bons a fazer aquilo de que gostamos, ou seja, a jogar futebol (e tudo o que lhe está associado: desde a Super Bock à conversa de café). Isto apesar de sermos um país pequeno, sublinhe-se, pelo que, em termos per capita, fomos claramente campeões do mundo.

Por outro, fazemos a nossa parte, per capita muito significativa, para ajudar no esforço internacional de resposta ao conflito no Líbano. Repito, o nosso C-130 viaja, “a pedido da ONU”, entre Itália e Beirute para transportar ajuda humanitária. E é o único. Roam‑se de inveja super-potências. É nestes pormenores que as grandes nações se definem!
Estranhamente ninguém parece perguntar porque raio é o nosso C-130 o único a fazer este trabalho. Mas não interessa. O que interessa é que é o único e que é português e que Portugal, apesar de ser um país pequeno, lidera o esforço humanitário por via aérea às vítimas dos bombardeamentos. Fico muito mais descansado. O que mais podíamos fazer? Já tinha sido o nosso Ministro dos Negócios Estrangeiros (MNE) a pedir uma reunião especial dos MNE da UE sobre este assunto e agora temos o nosso avião que se farta de aterrar em Beirute cheio de ajuda humanitária.

É verdade que, mais uma vez, a UE foi completamente incapaz de tomar uma posição comum que alguém compreendesse. E é verdade também que o plano de intervenção internacional neste conflito parece estar a ser calmamente (para dar mais tempo a Israel para fazer o seu “trabalho”) preparado pelos EUA, conversando com quem interessa. E quem interessa, na Europa, é a França e o Reino Unido (e, num segundo plano, a Alemanha e a Itália). A UE não tem forças armadas dispostas a morrer às ordens do Presidente da Comissão ou do Parlamento Europeu ou do Conselho. Não tem, sequer, um lugar no Conselho de Segurança das Nações Unidas. Em Politica Externa e de Defesa a UE pode ser uma visão ou um projecto, mas não é (não sei se deva ser) uma realidade.

Nós portugueses, como já disse, estamos descansados pois já fizémos o que pudémos. Agora precisamos de férias, de revistas côr-de-rosa, da sequela do “Código”, de discotecas ao ar-livre e de pessoas bonitas. Pessoas bonitas como as que apareciam nas fotografias de Beirute, a Paris do Médio Oriente, novamente bombardeada diariamente. Muitas dessas pessoas bonitas já deverão ter saído da cidade e do país (pelo menos as pessoas bonitas com a nacionalidade apropriada, i.e. não libanesa, e/ou o dinheiro suficiente).
No Líbano e em Israel a guerra voltou ao quotidiano, ocultando, entre outras tragédias, a iraquiana (só um homem com o carisma de Fidel Castro consegue rivalizar em termos mediáticos com uma guerra israelo-arábe; e, mesmo assim, só se a intensidade do bombardeamento e a clareza das imagens dos corpos mutilados não for suficiente).
Milhares de mortos, dezenas de milhar de desalojados, mais de um milhão de pessoas em fuga.
Tento ler alguma coisa sobre o que se passa.
Sei que havia uma resolução da ONU para desarmar o Hezbollah e que, se alguma coisa é certa, é que o Hezbollah não foi desarmado (milhares de mísseis movimentados em camiões não resultam propriamente de um processo de desarmamento bem conseguido). É verdade que o facto do Hezbollah, apoiado pela Síria e pelo Irão pró-nuclear (lembram-se?), violar a linha internacional que separa (separava?) Israel do Líbano, atacar soldados israelitas e raptar dois deles não é propriamente um acto de paz.
É verdade que o não reconhecimento do Estado de Israel por parte do Hezbollah, do Hamas e as sucessivas declarações dos responsáveis Iranianos não são propriamente actos de aproximação a Israel, um pequeno país em permanente estado de guerra e de luta pela sobrevivência.
É verdade que a resposta de Israel é brutal, talvez desproprocional (mas desproporcional a quê? À vida de dois soldados ou à existência de uma nação?). É verdade que as notícias e as imagens que nos chegam são extremas.
Não sei bem por onde me guiar. Fico-me por aqui. Leio, converso e tento perceber melhor. Boas férias.

sexta-feira, julho 07, 2006

O Herói Improvável[1]


Esta semana a nossa Princesa também foi ao estádio. Não percebe muito de futebol (não sabe de que país é o Ferencváros – aparentemente é um critério decisivo) mas não quer deixar passar em claro as últimas façanhas de um certo herói improvável.

Defendeu 3 penaltis, vive no Montijo (segundo as revistas da especialidade parece que tem casa ao lado dos pais e do irmão) e parece ser um tipo normal. Desta vez foi com luvas mas tanto faz. Dedicou a vitória a Deus (Ele agradece, concerteza). Dedicou-a também à mulher e à família. É o mais improvável dos heróis. Ou talvez não. A voz não augura liderança mas o herói transcende-se (palavra muito utilizada ultimamente) na selecção de futebol. Não tem a vida luxuriante dos “futebolistas-pop”. Não é bonito nem elegante nem particularmente carismático. Não se interessa pelo “metro-sexualismo” endinheirado de alguns colegas de profissão.

No Sporting, felizmente, nem parece ser um bom guarda-redes. As épocas são sofríveis e a publicidade que faz é a frangos de aviário. Mas é o nosso herói improvável. Um português que alegrou alguns milhões. Talvez o sucessor de Eusébio na história. Um herói geracional.

No passado fim-de-semana todos quisemos abraçar o Ricardo. Queremos lá saber do novo Ministro dos Negócios Estrangeiros e da substituição na pasta da Defesa; dos conflitos em Timor e da tensão “ensopada” em petróleo entre Ramos Horta e Xanana, entre a Fretilin e a Austrália; da ofensiva israelita em Gaza; da violência em Sadr City; do início da presidência finlandesa da União Europeia (UE). Queremos lá saber da subida dos preços do petróleo e dos transportes; da subida das taxas de juro e do endividamento dos portugueses; das múltiplas indefinições na UE. Queremos lá saber.

“Labreca” (deixa-me tratar-te assim), para a próxima, defendes 4.

[1] Este artigo é escrito em Manchester para onde vim no dia a seguir ao jogo com a Inglaterra. Imaginem o que seria ter vindo para aqui com uma vitória dos ingleses.... No entanto, como o escrevo antes da meia‑final, desde já deixo claro que se o Ricardo “meter água” nesse jogo todos os elogios ficam sem efeito.